Quinta-feira, 31 de Março de 2005

Ficção.........

João explodiu.

Não se lembra de nada antes do estrondo. A sua primeira visão foi o mundo inteiro muito ao fundo, lá em baixo. E vento começou a beijá-lo de baixo para cima. A Queda. João sentia-se pesado como chumbo, sentia-se a cair cada vez mais rápido, mas o mundo, o chão mantinha-se inalterável. Mantinha-se tão ao longe que parecia que João caía no mesmo sítio. Que iria ser assim para o resto da sua vida. E o pânico começou a abandoná-lo. João começou a gostar da queda. Todas as sensações ao rubro, a velocidade que quase lhe arrancava a pele do rosto, a solidão imensa e invejosa, com quem partilhava aquele espectáculo enorme. Via pequenas porções do mundo, apenas. Grandes terrenos cultivados, grandes cidades. Conforme se ia aproximando, começava a discernir mais pequenos pormenores: um bairro, uma rua, uma casa e depois ela... João não podia acreditar. Tinha estado quase toda a vida, parecia-lhe já, na Queda. Sozinho com a Queda. E sentia-se bem. Não precisava de mais nada. Ânsiava pelo baque final, quando tivesse que surgir. Era um plano simples. Cair, até não existir mais por onde cair. Mas agora existia ela. Queria cair para ela. Cair dentro dela. E ela olhava-o com uns olhos enormes, de todas as cores, sorria àquele pequeno homenzinho que vinha do céu, que parecia voar em direcção a si, apontado aos seus braços.
E João não se lembra de nada antes da a ver. Antes do seu vôo direccionado. Antes do seu alvo sorridente surgir na sua mira. Disseram-lhe que, há muito tempo, João explodira. Mas ele não acredita. Só se lembra de acordar a centímetros do rosto dela e de a beijar, numa aterragem suave de uma Queda esquecida após uma explosão violenta........
pintado por Trovador às 21:54
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Segunda-feira, 28 de Março de 2005

Onde quer que vá...

Começa com um adágio...
O longo cabelo que faz música, lentamente, quando cada fio toca no seu próximo, dedilham melodias pessoais orgulhosas, milhões de solos simultâneos que abafam todos os sons à volta.
Entro no seu olhar e vejo-me insonorizado. O mundo inteiro silencia-se e continua a sua rotação. Pé ante pé...
Suavemente, o seu sorriso abre um allegro que desliza na curva do pescoço para um ribombar heróico, próprio de um Hino, que soa no seu corpo, que nos leva a emociar,
que nos leva a um final apoteótico,
que nos leva o próprio ar.
A bandeira é o lençol que nos cobre esta noite.
Esvoaça constantemente, como que fustigado pelo vento que fazemos, como se se tivesse abatido um temporal na nossa cama. Mas, nos caminhos dela, o sol irradia um calor permanente.
Cobrimo-nos mutuamente por completo com um dilúvio de nós mesmos, sol e chuva em simultâneo... E o arco-íris surge, lentamente, ao longe, no nosso ventre.
Viajo nela, esgotado, temeroso. Com os olhos, com a ponta dos dedos que tentam passar despercebidos, sem acordar nada nem ninguém.
O seu clima está calmo, agora. Nem uma folha se move. Tudo dorme. Tentarei adormecer também. Aninhar-me à sombra de alguma àrvore, de alguma rocha, de algum seio...
E sei que esta noite dormirei como nunca. O meu sol e a minha lua pestanejam uma última vez e fecham-se por hoje. Estou em casa.
Ela é o meu país... ........................LC

pintado por Trovador às 17:03
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Domingo, 27 de Março de 2005

Chuva...

Cada gota é o meu nome sussurrado...
Pintaram o céu de cinza. Libertaram toda a água.
A chuva é uma voz com chama
que me chama em cada lágrima sua que verte.
Hesito. Não devia.
Todo aquele mundo molhado vai provocar mudanças em mim. Vai impregnar-se nas minhas roupas, na minha pele, tornar-me seu...
Vai chegar até aos meus ossos, vai lavá-los da sua brancura.
Vai puxar-me os cabelos da nuca como só uma amante faz...
Mas não resisto.
Abro os braços à hídrica assassina,
deixo-me matar uma e outra vez,
com cada gota que me beija a pele
e que me molha a alma que sorri.
Porque a minha alma sabe
que esta noite
dormirei encharcado em ti...
pintado por Trovador às 02:52
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Quinta-feira, 24 de Março de 2005

O mais belo quadro do mundo...

Cruzei-me com um velho quase moribundo.
Trazia uma tela, pincéis e algumas tintas.
"Pintar-te-ei o mais belo quadro do mundo
Nunca saberás como te toquei tão fundo,
Ilustrarei teu coração sem que o sintas."

Ri-me da sua cruzada com desdém.
Ele sorriu, ignorando o meu cepticismo.
Aplicou o seu talento, nunca visto em alguém.
Quando voltou a tela apercebi-me, porém,
Do quão profundo fôra o seu eufemismo.

Éramos eu e tu, como fugitivos do relógio voraz,
Suspensos, de sorriso tímido, a corar,
Naquele único momento fugaz
Que o Tempo velhaco, já não traz
Em que tivémos coragem de nos beijar.

Não durou mais que uma fracção
Aquele atrevido beijo inocente
Que guardei fundo no meu coração
E que estava agora ali, na minha mão,
Como Eternidade tornada eternamente Presente.

"Perdoa-me. Mas nunca te vou poder pagar.",
Disse ao velho, que me olhava esperançoso.
Verti uma lágrima, que ele se apressou a apanhar.
Espalhou-a na tela, nas cores, fê-las brilhar.
Tornámo-nos eternos, naquele beijo maravilhoso........ ..........LC
pintado por Trovador às 22:59
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Domingo, 20 de Março de 2005

Tira-me música...

Deito-me na minha cama. Aquela que vai ser a nossa cama daqui a pouco. Aquela que nos viu assassinarmo-nos vezes sem conta, onde tu me esmagaste e eu te esmaguei, onde rugimos como bestas disformes e horríveis com sorrisos doces nos lábios, onde se viram os nossos dentes e garras. Garras essas que me cravaste nas costas e usaste para gravar teu nome no meu peito e me fazer gritar. Grita por mim também. Eu estou afónico de o fazer por ti.
Deito-me na nossa cama. Acaricias-me o peito à distância, por enquanto. Dedilhas uma música no piano, como se cada tecla fosse um degrau em minha direcção. Como se cada nota fosse um passo para aqui. Eu quero que venhas para a nossa cama. Quero que me toques como se eu fosse um instrumento. Quero que me faças chorar como fazes ao piano.
Mas tu apenas me fitas por cima da partitura. Voas à minha volta, deixas-me trôpego com o teu perfume, despertas tudo o que há no meu corpo com aquilo que és. Mas não me tocas. Não me tocarás hoje, já sei. O teu piano será o único de quem tirarás notas harmoniosas, gemidos abafados, prazer longuíssimo. A noite é vossa.
Suspiro. Hoje não serei assassinado. Hoje não te terei nos braços, indefesa. Não te rasgarei em fiapos. Volto a vestir-me e encaminho-me para a porta com um sorriso. Tu nem reparas. Não esta noite.
Amanhã, talvez, eu serei o centro da tua Terra. Amanhã, talvez, poderei sentir o teu sabor, fazer-te vibrar até quase me fugires dos braços.
Seremos sempre assim. Dois mundos que se unem sem deixarem de ser dois. Talvez amanhã. Deixo-te a fazer amor com o piano e levo o meu corpo para casa ............LC
pintado por Trovador às 22:03
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Arcanum est...

Perguntaste-me, num nosso banquete,
Se a minha alma seria da tua
Confidente.
Fico a olhar o papel
Tentando ser fiel
Ao que a alma interrogada sente...
Não consigo.
Nada me daria
Mais prazer
Do que sentar-me no topo
Do mundo contigo
E ouvir o que tens a dizer.
Mas...
Terei que impôr algumas condições:
Se aceitares os meus relâmpagos,
Aceitarei os teus trovões.
Cara amiga, aviso-te!
Pois disso há necessidade. Prepara-te!
Tapa os olhos. Nunca fites o centro da tempestade... ...............LC
pintado por Trovador às 16:34
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Sábado, 19 de Março de 2005

Enegrecido... Com fuligem...

Eu estava só... Tinha os punhos e os ombros doridos, em chagas, de tentar arrombar a porta da casa onde eu próprio me tranquei um dia. Tenho janelas. Via as pessoas lá fora, a passear, a serem pessoas e a nunca proferirem um único ponto de interrogação. Tenho a garganta rasgada de tanto berrar com essas pessoas, mas o vidro é demasiado grosso e nunca ninguém me ouviu.
De repente, ouvi passos atrás de mim. Nunca tal tinha acontecido, julgava-me sozinho nesta casa. Era ela. A fonte inesgotável de Mundos, pois em cada poema que me sussurras, está um planeta a ser descoberto.
Disseste-me, num sopro: "Tem calma. Não grites sempre. "Diz o essencial. Pensa o restante." Somos más sementes. As últimas que a nossa àrvore deitou à terra. Somos o fim da linha, a ponta da espada."

Crónica de um Adão que provou o fruto do Conhecimento e que, com um sorriso nos lábios, foi escorraçado do inferno da ignorância........
pintado por Trovador às 19:51
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Quinta-feira, 17 de Março de 2005

Overture...

"Burilar"

Os Poemas teimam em não me sair do corpo.
Nascem de uma ideia pequenina que me saltita na mente, sorridente.
Como um marsupial, alimento-a de mim. Protejo-a. Faço-a crescer. Torno-a numa frase. Dou-lhe um corpo. Amadureço-a.
Incito a tornar-se numa estrofe.
Dou-lhe a confiança para o salto e ela mergulha numa folha de papel. Ela não se dá conta, mas eu amparo-lhe a queda. A minha menina... Sorrio...
E assim converso com ela. Educo-a. Aprendo com ela, tomamos longos cafés em esplanadas por todo o país.
Vejo-a crescer, espalha-se por três ou quatro estrofes, agora. Passeamos, conversamos nas minhas longas viagens de carro. Ela faz-me rir, já me faz pensar, também. É já madura. A minha pequena ideia feita poema.

Está na hora. Sinto o coração pesado, mas beijo o meu recém concluído poema na testa e liberto-o. "Podes ir. Estás pronto. Vai."
Mas ele hesita, o pequenito. Olha para a Terra, crítica e cinzenta. Vê uma tempestade que se forma ao longe, no horizonte, e recusa-se a partir. Retorna aos meus braços quentes e sorri, de olhos fechados.
Regressa ao meu interior, à minha mente, ao local onde ele pensa que nasceu. Mas encontra tudo deserto.
Percorre-me por dentro, vai-se passeando, segue o rasto de música e dá por si no meu coração. E é la´que encontra todos os seus irmãos. Sorridentes. Completos. Chamam-no, têm uma cadeira guardada para ele. Chegou a casa.
E eu continuo o meu caminho. Com um sorriso nos lábios. Tenho o coração cheio de poemas. E há sempre lugar para mais um... ...............LC
pintado por Trovador às 19:06
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