Domingo, 17 de Abril de 2005

As minhas viagens de carro...

Encontraste-me de novo.
Entre pisadas na embraiagem, sentaste-te no banco de trás do meu transporte. E decidiste não me ditar nada. Limitaste-te a estar ali. A deixar-me sentir-te.
Miradas no espelho levavam os meus olhos a um banco vazio. Mas eu sei que estavas ali. A sorrir-me. Recostada no meu banco de trás. Chamando vincos ao teu longuíssimo e leve vestido azul celeste. Ouvia os teus dedos a brincar com com a baínha do mesmo. Sorriste sempre. Tu. A minha estranha, que nunca vi mas que me invade sempre que há ar em mim. A total estranha que me mostra fechaduras nas minhas paredes, para portas que eu nunca pensei ter.
Desconheço-te por completo. Apenas sei que tens as minhas chaves. Que és a carcereira de tudo aquilo que tenho de mais belo, que libertas sempre que queres um espectáculo de mim.
A culpa é minha. Dei-te a minha morada sem nunca te perguntar a tua. Mas desta vez, tive coragem. Corado, engolindo em seco, murmurei:
- Gostaria de te poder visitar também... De onde vens tu?
Senti-te sorrir atrás de mim. O vestido murmurou algo quando te inclinaste para a frente, para desaguares nos meus ouvidos.
"Daqui..." sussurraste.
A última coisa que senti foi um toque muito leve no meu peito...
pintado por Trovador às 22:08
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À minha musa azul...

Desperto a música.
Cada ínfima nota invade-me sem controlo, espalhando o caos.
Deixo de ver o que olho, o mundo estremece, altera-se tudo à minha frente.
Ela chegou. Eu sei que chegou.
Sinto o leve respirar da minha musa na nuca, mas não me volto. Sei que não a conseguirei ver. Não hoje...
Apenas fecho os olhos e espero o beijo. Os seus lábios são a única parte da sua pele que a minha pele conhece. Pousam no meu pescoço com o peso desmesurado de uma borboleta. E sinto-a. Alastra em mim a partir daquele ponto afortunado. Ela empurra tudo o resto para longe. A ânsia inunda-me. Sei sempre que ela chegou quando sopra no meu ouvido uma brisa que diz: “Estou aqui...”
Abre o peito, meu tenor! Faz-me chorar! Faz-me grande!
Expludo por ti, musa! Arremesso a tela ao chão, sinto-te em mim, possuis-me como um demónio sedento de liberdade. Rasga-me! Vem! Vem a mim! Dar-te-ei o portão de que necessitas para conhecer o meu mundo! Eu era limpo sem ti! Enorme! Mas contigo sou capaz de voar! Não vejo o chão há milénios. Sou cristalino, transparente! Como tu. Como a água com que misturo as minhas tintas. Como as cores que ordeno que se ergam da paleta. Como os tons que invoco... Rasgo traços na tela, transpiro sorrisos, limpo-os da testa. Respiro tão profundamente que penso que apenas sou pulmões.
O tenor continua a incitar-me... Espera! Tem piedade de mim! Não me faças chorar assim! Eu não aguento tanta cor! Sinto a minha casa inteira abanar. Todo o mundo treme, desmorona-se como se feito de areia, de papel, de pedaços de cartão. Mas os meus olhos, molhados com sorrisos, não saem da tela. Não sei abrir o peito como o tenor. Faço-o com os dedos. Com os pincéis. Com as tintas onde te misturei, musa, com água, com lágrimas, com sorrisos... comigo.
pintado por Trovador às 21:34
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Sexta-feira, 8 de Abril de 2005

Musicalidades...

Passei toda a manhã a rabiscar.
O papel, como uma sereia, não parou de cantar
Acreditei ter concluído a peça
Que esculpira devagar, sem pressa.
Ansiei transpô-la para aqui, sem tardar
Sentei-me ao computador para a matar.
Abri a folha escrevinhada
Coloquei-a à minha frente, amarrotada.
Preparei-me para a transcrever...
Quando endireitei as costas,
Quando pigarreei,
Quando abri as mãos sobre as teclas
Vi o que estava realmente a fazer.

Inspirei de novo, bem fundo
Deixei a partitura de lado
Limitei-me a ser a escada do meu mundo
Deixei tudo subir ao teclado.
Não será de grande monta
Tudo aquilo que senti
Mas o que realmente conta
É a improvisação de piano que deixo aqui...
pintado por Trovador às 15:55
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Segunda-feira, 4 de Abril de 2005

Em dia não...................

Este é para os teus demónios...
As criaturas que habitam o teu coração.
As tuas tempestades amestradas, aqueles gritos que trazes no peito como prisioneiros de ti.
Aqueles que a liberdade nunca tocará, que nunca verão o sol. Aqueles que cobrem o teu chão, sem nunca querer sair.
Este é para os teus demónios, os meus irmãos demónios. Aqueles com quem partilho o meu espaço no teu ser. Eu, o teu monstro de estimação, a criatura disforme que acolhes no teu leito, a tua explosão de trazer por casa.

"Deusa da Terra invertida. A terra, dura e rígida, da qual florescem coisas tão frágeis. Mas tu, tão frágil de aspecto, consegues fazer fluir de ti lâminas tão duras. Plantas-me no chão. Regas-me com a tua essência. Sou faca. Corto.
Deusa da água, cujo templo me é interdito. Entre os meus lábios e os teus pés estão três quartos da Terra.
Deusa do fogo, cuja luz não consigo atear. A lenha está húmida das minhas lágrimas. A gasolina evaporou. Estou cansado. Esgotei já todos os meus fósforos.
Deusa do ar, cuja essência não consigo deter. O teu vapor etéreo queima-me por dentro, mas não destrói; apenas aquece. Atravesso-te, atravessas-me. Respiro-te, inspiro-te, passeias pelo interior de mim. Vejo-te, mas desapareces muito. És-me só perfume. Não te prendo o sabor, a tua cor corre veloz. Perco o fôlego, quando sustenho a respiração, tentando roubar-te pedaços de ti e levá-los comigo..."
pintado por Trovador às 22:14
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