Quinta-feira, 23 de Março de 2006

Replay...

Ultimamente algo ou alguém tem-me segredado que re-edite este texto antigo, mas com algumas alterações... E eu faço sempre o que as vozes na minha cabeça mandam...

"Ivan e Anaísa...


 

Ivan criou a sua própria mulher...


Foi sem querer... Tinha catorze anos. Criou-a naquela altura de liceu em que nasce um ser humano dentro de nós e quer à força encontrar espelhos à sua volta. Ivan não os encontrou. A começar por ter um nome estranho num mundo em que pupulavam os “Joões” e os “Manuéis”, Ivan nunca encontrou um lugar ou um par de braços a que pudesse chamar de “casa”...


A dama Imaginação sempre exercera um domínio fortíssimo sobre Ivan. De uma forma natural, nasceu a Anaísa, rapariga medianamente bonita, de cabelos ruivos, da mesma estatura de Ivan, da mesma idade. Mas a secção física da personagem era de tal forma secundária que Ivan apenas criou estes pontos específicos. Nem um rosto fez. Não era importante. O que atingia Ivan como uma bofetada violenta era o que brotava dos lábios de Anaísa. Um reflexo perfeito dele próprio. A mesma música, os mesmo filmes, o completar das frases dele. Ela era a sua “Cabelos de Fogo”. Ele era o seu “Tigre”.


Foi a ela que escreveu o primeiro poema. À musa irreal. Foi com ela que teve o primeiro sonho erótico. Ivan sonhou vezes sem conta que os seus sonhos não eram apenas sonhos. Sonhou que, de facto, eram um encontro com a sua musa inexistente, num plano superior, que ela estaria algures a sonhar com ele, a criá-lo...


E Ivan terminou o liceu. Faculdade. O pegar na alma e remodelá-la. A transformação completa do seu ser. O contacto com raparigas reais. E a busca pela sua Anaísa continuou. Sempre que via uma rapariga com cabelo ruivo, corria para tentar conhecê-la, quebrar o gelo, a dança, a conversa, o beijo, a desilusão. Era sempre a Desilusão que Ivan encontrava no final do arco-íris, ao invés da sua Anaísa.


A desistência da busca chegou célebre. E exactamente como o chão chega para algo que se atira ao ar: inevitável. Ivan abriu os olhos para outras mulheres. Sim, pois eram mulheres, agora. Pensou que se apaixonou. Abriu os olhos, novamente. Voltou a pensar que se tinha apaixonado. Repetição...


Anaísa passou de musa a motivo de vergonha. Mas logo depois voltava, como uma recordação de adolescência que se preza e se guarda ao peito como algo que faz parte de nós. Longas conversa tinha Ivan, em longas viagens de carro ou comboio. Só Anaísa o compreendia. O seu espelho. “Sabes há quanto tempo estou à tua espera?”, perguntava-lhe Anaísa. “Descobre-me... Revela-me... Toca-me de uma vez...”


 

Chave. Ignição. Explosão. Engrenagens rudes que se tocam, lascivas, e que impelem o carro de Ivan adiante. Um concerto de música. Ivan teve grandes problemas em chegar a horas. Mas conseguiu. Entrou no auditório e começou a sentir o desconforto natural que surge antes de uma guerra entre planetas. Passeou os olhos pelas dezenas de pessoas que se amontoavam à porta do auditório. E o concerto desapareceu da mente de Ivan. A quantidade de rostos familiares que surgiam diante de si amedrontaram-no de tal forma que foi incapaz de dizer o que quer que fosse até ao final do sonho. Quadros surreais, como ver a sua professora primária, a sua professora preferida do 2º ciclo e uma professora do 8º ano, a conversar como se falassem dele. Sem aviso, toca-lhe no olhar o professor de liceu que o inspirou em seguir a profissão que tem. Na aula do qual escreveu o primeiro poema à musa. A Anaísa. Mais ao fundo, sentada, estava a sua primeira paixoneta pós-criação de Anaísa. A primeira Desilusão. Uma espécie de professora ela própria. Todos estavam lá. Quase que Ivan pensou que aquele concerto tinha sido feito por ele. E para ele. Sentiu um trovão cantando ao longe. E a música começou.


Os músicos foram sendo iluminados um a um. Um pianista, um guitarrista, um violoncelista, um baterista... Depois do quinto foco se inflamar, Ivan não se lembra de se lembrar de mais nada. Sentada numa cadeira no palco, de violino na mão, estava uma rapariga medianamente bonita, de cabelos ruivos, da mesma estatura de Ivan, da mesma idade. Ivan tremeu. A sua Vida já o sentara por diversas vezes naquela sala de aula e lhe tinha ensinado aquela lição. No fim do arco-íris estaria mais uma Desilusão. Mas todo o quadro que antecedera o concerto deixou-o desassossegado. Não conseguiu descolar os olhos da menina durante todas as canções. O violino chorava mares de sorrisos e de sonhos perdidos. Tremeu ao pensar que seria a sua Anaísa. Tremeu ao pensar que seria capaz de correr aos camarins, deixar um bilhete com “Ivan”, “Tigre” e o seu número de telefone. Se fosse a “sua” musa, entenderia. Tremeu ao receber um telefonema de madrugada com uma voz do outro lado que dizia: “Sou eu...” Tremeu de novo quando uma das músicas acabou e foi resgatado de volta de mais aquele sonho pelos aplausos do público.


O pianista começou a apresentar os músicos. Sons brotavam da sua boca, mas Ivan não os compreendeu. Só compreendeu duas palavras: “Violino” e “Anaísa”.


Os pulmões de Ivan incharam até ao limite possível. Sentiu o coração bater na ponta dos dedos. A sua musa real. A sua musa existia. Mas logo a Vida reforçou a lição. O pianista apresentou então o baterista. “Bateria”, “Ivan”. E a “sua” Anaísa lançou um beijo ao baterista.


Anaísa tinha encontrado o “seu” Ivan. O errado... 


A música seguiu depois disto, como pessoas de luto após o caixão num cortejo fúnebre.

Ivan seguiu também. Iria encontrar a sua musa. Mas para sempre teria a certeza de ir ao encontro da musa errada..."

LC

pintado por Trovador às 22:43
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4 comentários:
De MalucaResponsavel a 25 de Março de 2006 às 00:12
é re-editado? é lindo... simplesmente comovedor e lindo. jks
De impressoesdigitais a 25 de Março de 2006 às 14:28
Acho que fiquei a perceber melhor este texto...
De anaïsa a 10 de Junho de 2006 às 14:00
"sou eu..."

www.meninaderio.blogspot.com
De Trovador a 12 de Junho de 2006 às 16:52
Não tem piada...

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