Segunda-feira, 30 de Maio de 2005

O aventureiro

O aventureiro que vivia as suas aventuras
Que conquistava nações sem nada temer
Nada tinha de seu excepto noites puras
Passadas ao relento, em camas de pedras duras
As noites sem estrelas eram o que o fazia tremer.

Não tinha o retrato da sua distante amada
Nada que lhe matasse saudades durante o dia
Mas sentia-a, atrás do céu azul, caminhando pela estrada
De noite, unia as estrelas com um dedo da mão fechada
Desenhava o rosto dela tornando-a o seu tecto, por fim adormecia.

Quando a noite envia as estrelas para o receber
O aventureiro e a sua amada são reunidos
Transbordam de doces toques que os fazem querer
Morna realidade e ardente sonho um dia inverter
Para se adormecerem mutuamente com beijos sentidos

Quase nada possui de seu, com efeito
Apenas um mar de céu, como cobertor
E o mundo inteiro, enorme, como seu leito.
Nada daquilo que é seu, a ele tem direito
Excepto o desenho nas estrelas, o retrato do seu amor...
pintado por Trovador às 18:51
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Terça-feira, 24 de Maio de 2005

Fantasia...

Ele
Acorda dela
Sabendo que ela não é real.
Parte para o seu dia,
Deixa-a a dormir na cama, segura, livre do mal...

A aula não lhe importa
Corpo e mente
Não estão no mesmo lugar.
Rascunha poemas inconsequentes
Pois é inconsequente
A alguém inexistente
Os dedicar.

Entra na sala de cinema
Para sair do mundo,
Nem que seja por uns momentos.
Gostaria de partilhar com ela o filme
Sonha de novo, deambula,
Deixa-se prender nela em novos tormentos.

A loja de música
Oferece-lhe a surpresa.
Do seu album favorito restam apenas dois exemplares.
Pega num, puxa da carteira que está presa,
Dá um esticão, espalha moedas pelos ares.

Reúne o melhor que pode, embaraçado
O vil metal caído no chão
Quer voltar para casa
Quer voltar para ela
Sai de rompante, em alguém dá um encontrão.

A doce música já canta
Ele repousa no seu leito.
Cama cheia de histórias dela, transborda por fora
Mulher completa que o deixa satisfeito.

Ela
Abre os olhos matinais
Suspira, perante os desafios que a esperam
Recolhe da almofada o que dele resta
E guarda-o no peito, única companhia nos dias que não a toleram.

Ninguém conhece o que trauteia,
Ninguém lhe endereça poemas
Não compreendem a sua roupa
A sua Arte
A sua Raiva
Nem as constantes idas aos cinemas.

Destrói acordes numa guitarra
Distorce a alma, muito embora
Nada daquilo lhe pareça certo.
Grita como pode, sabe que ele lhe sussurra cada verso
De onde ela o guardou, de dentro para fora
Dali, de bem perto.

Ninguém procura a sua música
Entra em lojas sem esperança de a encontrar
Arrepia-se, quando lhe sorri
De uma estante
Solitário, forte e belo, um único exemplar.

Como um felino com a sua presa
Quer fugir para a devorar, quer matá-la
Indefesa.
Mas terá que esperar...
À sua frente, um rapaz engraçado
Espalhou moedas por todo o chão.
Paga o que deve apressado
E, ao sair, desorientado, ainda lhe dá um encontrão.

Ela
Recolhe à sua Paz.
Desembrulha-o do seu peito.
Ouve a doce música até o abraçar num doce sono.
Imagina-se com ele, de novo, ali no leito,
Fantasia encontrá-lo acordada, salvá-lo
Do seu incauto abandono...
pintado por Trovador às 19:41
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Quinta-feira, 5 de Maio de 2005

Na Praça Pública

Subi ao púlpito negro
Por minhas mãos levantado;
Levantado por minhas mãos esgarçadas...
E, da tribuna mais alta,
Arrepelando os cabelos,
Gritei à malta:
- .Camaradas...!

Eh, camaradas...! Ouvi,
Que vou dizer-vos quem sois,
Pois vou dizer-vos quem sou..
(...)
.Eu! Camaradas!

Eu sou o esboço de Alguém
Que esteve quase a nascer,
Mas não nasceu.
...Quem me não deixa ser eu?!

Viver, é para mim, duvidar,
Desvairar,
Interrogar,
Procurar-me,
Torturar-me,
Agarrar fumo nas mãos,
E acenar a uns meus irmãos
Que sinto perto, e não vejo
Por causa da multidão...

Sou um desejo
Que não tem satisfação!...
Embrião que nunca pode ser flor,
(é esta a minha tragédia
e é esta a minha comédia)
Sou a linha do Equador,
Que fica entre Cá e Lá...

Senhor!...
Responde, Senhor,
Meu autor,
Criador nosso,
Culpado disto que sou!...
Porque animaste o esboço
Da obra que te falhou?

José Régio, Poemas de Deus do Diabo
pintado por Trovador às 23:22
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Palhaço...

Soam as trompetas sob a enorme tenda
Soam ao longo grito de um corvo
O nosso personagem já não tem nada que o prenda
O espectáculo pode começar de novo.
Estará sempre sozinho, estará sempre só
O projector incide sobre uma figura colorida
O palhaço pintado, uma presença que mete dó
Actor do riso, anedota da Vida.
Oferece ao público expectante
Serões de magia, semblante sorridente
Pede apenas um aplauso constante
Alimento ridículo que o impele em frente.
Os espectadores de si
Nunca o verão sofrer
O palhaço que sempre ri
Esconde aquela lágrima que não verão correr.
O livro enorme e pesado
É desfolhado numa pressa
Logo depois é largado
Vistas as figuras, o texto não interessa.
Todos abraçam com peito cheio,
O seu último gracejo
Fecham os olhos, com receio,
Perante a expressão de um seu desejo.

Aquele que sente...
Aquele que se sente presente...
Deverá abdicar de assim estar?
Deverá se tornar normal? Ser igual?
Unir-se à Terra, a tudo o que ela encerra?
Abraçado seria concerteza, amado até.
Sentiria que era ali que pertencia.
Mas os gracejos continuaria a vir
Os poemas continuariam a surgir
E a Terra irá para sempre preferir
Os frutos da sua Árvore de Sentir.

O espectáculo acerca-se de um fim
Mas não é ele que se retira para os bastidores
É o público que se fatiga num sangrento festim
E o artista continua, ignora as suas dores.
Abre os braços aos novos aplausos, com os músculos a arder
Acolhe-os a todos no seu receptáculo
Chora de novo, todos os dias se vai aperceber
Que a sua vida não passa de um espectáculo...
pintado por Trovador às 14:07
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